As pessoas que me conhecem, sabem exatamente qual é a minha posição política. E eu poderia escrever um ensaio dizendo exatamente tudo que se espera que eu diga na atual conjuntura. Mas eu quero fazer isso de uma maneira mais produtiva, se conseguir.
É que as discussões têm se polarizado cada vez mais desde as últimas eleições presidenciais, e acho que apesar de a Marina Silva não ser uma alternativa viável a esse processo, isso não quer dizer que esta alternativa não seja necessária.
Concordo plenamente com o artigo do Prata na Folha de hoje. Acho que essas manifestações, ainda que lícitas à luz da liberdade de expressão, são resultado de uma profunda falta de compreensão da diferença entre a vontade de um grupo social dominante e a validade do processo democrático.
Mas ao invés de encerrar a conversa aí, eu quero ir um pouco além. Quero entender a agenda e o sentimento dessas pessoas de uniforme do Brasil que vi perambulando pelos arredores da minha casa. O problema pra eles é a corrupção? Estamos juntos! Acho que isso é uma mazela do poder público que tem que ser combatida de maneira exemplar. Porém acho que as semelhanças acabam aí.
Porque ao contrário dessas pessoas, eu não desprezo as instituições do país a ponto de sugerir a impugnação do resultado do último pleito, ou de querer se mudar pra Miami porque este resultado não foi o que queriam. Também ao contrário deles, eu não acho que o modus operande do governo federal seja tão diferente daquele utilizado há mais de 20 anos no Estado de São Paulo por aqueles que os de camisa da nike consideram como a gloriosa resposta a todos os males da nação.
Não gosto particularmente da Presidente e não concordo com inúmeras medidas do executivo federal, a começar pela escolha dos ministérios. Porém me parece de uma ingenuidade um tanto quanto espantosa que algumas pessoas de esquerda considerem que algo muito diferente fosse possível (dadas as alianças feitas nas eleições) e que a direita imagine que poderia fazer um trabalho tão melhor caso tivesse chegado ao planalto (a memória é mesmo tão curta assim?).
Como minoria discriminada ativa ou passivamente nos círculos sociais que frequento, fica muito fácil observar o quanto essa revolta tem em comum com uma certa nostalgia de tempos em que os privilégios herdados de fato permitiam garantir e validar sua própria manutenção. Hoje o discurso é menos escancarado, até porque este tipo de posição remanescente do nosso vergonhoso passado escravocrata já não pega bem publicamente.
Mas ele está longe de ter sido extinto. Na verdade, assim como a discriminação às minorias no país, ele apenas se tornou mais sutil. Travestido de um macio espírito liberal de cunho protestante, reluta-se fortemente em aceitar que o amadurecimento da democracia por aqui, ainda que lento e cheio de vicissitudes, acabou de fato por mitigar um pouco do abismo social que nós da elite crescemos considerando como inevitável. Pudera. Nossos apartamentos de classe média eram sempre equipados com dependências de empregada.
Será que falta boa fé, inteligência ou conhecimento pra entender que a lógica da corrupção é exatamente a mesma que permite a manutenção de quaisquer privilégios? Ou seja, que permite que pessoas com acesso privilegiado à gestão da coisa pública direcionem suas iniciativas à defesa de seus próprios interesses? Será que não falta reconhecer que os próprios méritos de que tanto se orgulham e ostentam em relação ao sucesso na carreira e uma renda muito mais alta que da grande maioria da população tem muito menos de mérito e mais de sorte e vantagem inicial?
sexta-feira, agosto 14, 2015
quinta-feira, julho 23, 2015
Abuso de poder em diversos sabores
Os brasileiros, especialmente os de classe média-alta, acham que nosso país é muito especial pelas coisas absurdas que acontcem por aqui. Geralmente eu discordaria, e atribuiria esta percepção a uma visão de mundo ecocêntrica e uma ignorância ilimitada a respeito dele (ir pra Miami torrar dinheiro não conta como ver o mundo na minha opinião)
Nesse caso eu acho que o fulano foi um pouco longe de mais. Talvez as pessoas digam isso no Sudão. Mas trata-se de uma zona de guerra, e todo mundo sabe que estupro e assassinato são práticas comuns nessas circunstâncias. Não me parece o caso no congresso nacional. M as na minha opinião, o abuso de poder acontece em todo lugar. Ele assume formas e cores diferentes, mas na verdade é sempre o mesmo velho fenômeno. Pode ocorrer em empresas do mais alto gabarito, praticado tanto por homens quanto por mulheres, no congresso ou em um campo de batalha.
Algumas pessoas se esforçam muito pra entender como o holocausto aconteceu na Europa há mais ou menos 75 anos. Outros têm a cara de pau de negar a existência dessa tragédia (o que não só é uma conduta estúpida dada a quantidade de provas irrefutáveis do que aconteceu, como também desprezível).
Tenho certeza absoluta de que as pessoas sedentas por poder foram muito úteis em algum lugar na nossa história evolutiva. Mas agora elas são provavelmente a maior ameaça de riscar a humanidade da face da Terra por serem fundamentais na manutenção de desequilíbrio em escala planetária, pensando somente no próprio benefício delas. Então a menos que as pessoas que detestam o poder resolvam fazer alguma coisa a respeito, essa corja vai conseguir exatamente o que deseja, custe o que custar ao resto de nós.
Mas eu realmente acho que temos características peculiares por aqui (discordando sem grandes bases do livro do meu avô sobre a inexistência do conceito de caráter nacional). Mas ao contrário dele, eu não pretendo me tornar catedrático da USP (também não sei se deficientes chegam a tais alturas), então posso especular à vontade.
Pra mim somos paradoxos ambulantes. Temos os menores biquinis do mundo, além dos métodos de depilação que são usados em conjunto. Ambos são famosos no mundo todo. A sensualidade da mulher brasileira é como se fosse um produto tipo exportação. E ainda assim estamos muito acostumados a julgar e condenar moralmente as mulheres que têm uma vida sexual ativa.
Isso me leva a pensar que não valorizamos a beleza insinuante das brasileiras. Tratamos esse predicado como um produto de consumo masculino, objetificando as mulheres. Ao invés de dar poder às mulheres, a beleza delas se torna mais uma sórdida prisão (ainda que com uma linda vista).
Assim como os traseiros das moças em nossa costa ensolarada, os preconceitos também estão à mostra por aí, apesar de uma certa sensação de inferioridade e vontade de agradar os outros (é vô, de novo a história do homem cordial...) O curioso é que essas contradições constantes criam anomalias, como a nossa extrema direita. Esses caras são a condensação perfeita de tudo que há de escroto na nossa cultura. Tanto que um deputado federal reeleito chamado Jair Bolsonaro teve a pachorra de dizer abertamente que não estupraria uma colega congressista porque ela não merece (insinuando que ela não é atraente o suficiente para que ele se sentisse suficientemente motivado).
Nesse caso eu acho que o fulano foi um pouco longe de mais. Talvez as pessoas digam isso no Sudão. Mas trata-se de uma zona de guerra, e todo mundo sabe que estupro e assassinato são práticas comuns nessas circunstâncias. Não me parece o caso no congresso nacional. M as na minha opinião, o abuso de poder acontece em todo lugar. Ele assume formas e cores diferentes, mas na verdade é sempre o mesmo velho fenômeno. Pode ocorrer em empresas do mais alto gabarito, praticado tanto por homens quanto por mulheres, no congresso ou em um campo de batalha.
Algumas pessoas se esforçam muito pra entender como o holocausto aconteceu na Europa há mais ou menos 75 anos. Outros têm a cara de pau de negar a existência dessa tragédia (o que não só é uma conduta estúpida dada a quantidade de provas irrefutáveis do que aconteceu, como também desprezível).
Não estou mínimamente interessado nos últimos. Pra mim eles podiam todos falecer rapidamente, para nossa alegria. Para os outros, aqueles que não entendem o que aconteceu, a minha resposta simples é a sede de poder. Ela está sempre rondando e é altamente recompensada pela nossa sociedade porque retroalimenta a lógica de manutenção do sistema tal como é hoje: cria mais riqueza para aqueles que já são ricos, mantendo o status quo. Alimenta a discriminação que por sua vez justifica a desigualdade sem criar uma guerra.
Tenho certeza absoluta de que as pessoas sedentas por poder foram muito úteis em algum lugar na nossa história evolutiva. Mas agora elas são provavelmente a maior ameaça de riscar a humanidade da face da Terra por serem fundamentais na manutenção de desequilíbrio em escala planetária, pensando somente no próprio benefício delas. Então a menos que as pessoas que detestam o poder resolvam fazer alguma coisa a respeito, essa corja vai conseguir exatamente o que deseja, custe o que custar ao resto de nós.
sexta-feira, dezembro 19, 2014
Seus pensamentos podem nem ser seus. E certamente você não é seus pensamentos.
Por alguma razão (talvez esotérica) as pessoas tendem a me revelar coisas muito íntimas das suas vidas e dos seus sentimentos. Ontem isso aconteceu de novo. Eu acho que tenho um certo talento para ajudar as pessoas a enxergarem as coisas de uma outra perspectiva. Isso pode ter a ver com o fato de eu ter sido obrigado pela vida a fazer isso. Mas isso é assunto do outro Blog.
Pois bem. Neste caso havia muitas circunstâncias que levaram a pessoa a um estado mais ou menos constante de sofrimento psicológico e até mesmo físico. E ao ouvir a história e prestar atenção à conduta adotada frente a situação enfrentada, eu percebi qual era o problema. Resolvi escrever sobre isso, porque acho que sem expor a pessoa de maneira alguma, talvez eu consiga ajudar muitas outras que sofrem no mesmo padrão recorrente (como foi inclusive o meu caso por muitos anos).
A primeira causa raiz que eu encontrei foi uma frustração ligada a uma auto-imagem desejada. E quando falo de imagem, isso não se resume ao que é visível, embora este seja um componente importante. Me identifiquei muito com este relato. Acho que minha história de vida me tornou um profissional nesta doída arte da comparação com os outros e com um ideal muitas vezes inatingível.
Falando assim parece simples. Parece inclusive que a pessoa tem um problema em estabelecer conexões lógicas bastante óbvias. Mas é justamente aí que está a complicação. A falta de consciência dos efeitos do meio sobre si mesmo ou sobre os outros é o que muitas vezes leva a este diagnóstico simples, porém absolutamente equivocado.
Somos seres sociais. Isso tem implicações profundas e espalhadas por todos os âmbitos de nossas vidas. O ponto é que muitas destas implicações se tornam ainda mais poderosas por estarem ocultas e, portanto, não serem consideradas nos julgamentos que se fazem. Um exemplo simples é subestimar a importância crucial da aprovação das pessoas que nos cercam. Ao fazer isso, uma pessoa também acaba não compreendendo que muitos dos juízos de valor que lhe parecem mais íntimos, nada mais são do que um reflexo do ambiente social. Exemplo meu: tenho a impressão de querer intimamente estar aderido aos padrões sociais correspondentes à minha classe econômica, meu nível de educação e meus círculos sociais próximos.
Mas na verdade, esse desejo é uma mistura de fatores. No fundo, de modo não sempre consciente, eu sei que o tratamento social recebido pelas pessoas que têm esta aderência é muito melhor. Assim, mesmo que pessoalmente eu não tenha um apreço especial por essas características, eu posso acabar tomando-as como desejos íntimos, que dariam sentido à minha vida.
O problema é que de fato alguns destes desejos podem ser impossíveis de se conseguir. Isso acontece porque ainda que haja uma integração parcial de pessoas distintas em um determinado grupo social dominante (como no meu caso, um deficiente físico com todas as outras prerrogativas de pertencimento à classe dominante em São Paulo), esta integração tem limites bastante rígidos.
Ao defrontar-se com estas restrições, o indivíduo sofre um baque bastante forte. Porque se a diferença é algo antigo, no fundo a pessoa sabe que teve de fazer esforços e sacrifícios bastante grandes para ser aceita, ainda que não completamente. Poderia se sentir traída, mas nem sempre isso acontece. Novamente o espelho social tem um papel preponderante na análise que se consegue fazer. Ao invés de compreender que há diferenças entre si mesmo e o grupo social de referência, e que estas direta ou indiretamente impedem a integração, os sinais recebidos do meio fazem com que muitas vezes, a frustração e a decepção tenham o próprio indivíduo como alvo.
Assim, a pessoa começa a se sentir inadequada, incompleta, quase como uma aberração. Ela não considera que a sociedade tem interesse em que as pessoas sejam de determinada maneira e que alcancem certos marcos de desenvolvimento em determinados pontos no tempo. Ela pensa, ao contrário, que este desejo é legítimo, e além disso, dela própria, íntimo.
É bastante razoável supor que esta situação gere grandes doses de sofrimento. Mas o que faz dela tão perigosa e danosa é o fato de a pessoa voltar sua energia para combater a si mesma. Ao invés de perceber o quão arbitrário e até incoerente é este julgamento social absorvido, a crítica interna se volta contra os próprios traços discrepantes e também os sentimentos causados por toda esta dissonância.
Debaixo do fogo cruzado, o próprio e o social, a pessoa passa a tentar desenvolver estratégias para combater esses sentimentos desagradáveis e que muitas vezes acabam gerando quadros patológicos. Uma das armadilhas mais comuns nestas situações é crer que ser possível controlar os próprios pensamentos e sentimentos. Esta é uma falácia bastante popular, mas que pode ser aniquilada de maneira bastante simples.
Se eu disser para mim mesmo, ou para qualquer outra pessoa, que evite pensar em uma girafa verde com bolinhas amarelas, o que estou fazendo é estimular este pensamento e não coibi-lo. Por isso, tentar controlar pensamentos e sentimentos é uma tarefa ingrata: quanto mais energia se gasta, menos se alcança o resultado desejado.
Mas as pessoas têm muita resistência em aceitar este fato porque a sensação de controle (e especialmente de auto-controle) está incrivelmente relacionada à felicidade. Assim a pessoa novamente se machuca, porque não importa seu nível de determinação e esforço, pensamentos e sentimentos são espontâneos. E quando o esforço é vão (o que acontece com extrema frequência) a frustração ganha uma nova dimensão. Essa frustração acumulada vai tornando a pessoa cada vez mais negativa e descrente no que está por vir (além de gerar um sentimento de culpa por não ser capaz de fazer algo que acreditava piamente ser possível).
Apesar de ter descrito o mecanismo perverso pelo qual a exclusão social se manifesta na psique humana, a conclusão deste texto não será em tom menor. Porque apesar de continuarmos sendo seres sociais e apreciarmos o feedback positivo das pessoas que nos cercam, é possível ter clareza sobre a separação entre nossas demandas e desejos íntimos daqueles que apenas absorvemos para depois projetar de volta ao meio.
A melhor ferramenta que eu conheço para fazer isso é a meditação. A explicação também não tem nada de esotérico. Meditar é treinar a atenção, para dentro e para fora. Quando você faz isso, percebe que sentimentos e pensamentos possuem uma natureza transitória e involuntária. Por isso, acaba sendo natural tratá-los de acordo, e assim gastar menos energia tentando controlar o incontrolável.
Além deste insight fundamental, um outro também surge ao mesmo tempo. Não é possível controlar pensamentos e sentimentos, mas é possível e desejável controlar onde focamos nossa atenção. Então o benefício é duplo. Porque simultaneamente reduzimos o gasto energético com uma tarefa impossível e ganhamos consciência de uma forma de controle que é fundamental ao nosso bem-estar. O treino da atenção revela e solidifica a certeza de que não somos nossos pensamentos ou sentimentos. A observação atenta revela que há mesmo distância entre estes e o que somos. Do contrário, não seria possível assumir a posição de observador destes fenômenos.
É muito interessante que além da capacidade de observar os próprios pensamentos e sentimentos como algo separado de nós mesmos, este treino da atenção também acaba possibilitando enxergar a separação entre nós mesmos e o mundo que nos cerca, permitindo saber com clareza quais são os nossos desejos, anseios e vontades e quais são os que apenas tomamos emprestados aos que nos rodeiam.
E não pense que esta separação nos afasta das pessoas. Na verdade acontece o oposto. A visão clara de quem somos permite que nossa curiosidade desabroche e que busquemos o conhecimento do outro e a proximidade de maneira muito mais honesta e serena.
Por isso, apesar de saber muito bem o quão deletério pode ser o efeito da sociedade sobre alguém que não possa ser completamente integrado devido à diferenças físicas, psíquicas, culturais, etc, (e o outro blog fala muito sobre isso) entendo que a serenidade continua ao alcance desta pessoa. Pode não ser uma tarefa fácil ou com resultados instantâneos. Mas ao contrário das terapias, a prática constante da meditação certamente trará benefícios, mais cedo ou mais tarde. E assim como a sua própria atenção, fazer isto só depende de você.
Pois bem. Neste caso havia muitas circunstâncias que levaram a pessoa a um estado mais ou menos constante de sofrimento psicológico e até mesmo físico. E ao ouvir a história e prestar atenção à conduta adotada frente a situação enfrentada, eu percebi qual era o problema. Resolvi escrever sobre isso, porque acho que sem expor a pessoa de maneira alguma, talvez eu consiga ajudar muitas outras que sofrem no mesmo padrão recorrente (como foi inclusive o meu caso por muitos anos).
A primeira causa raiz que eu encontrei foi uma frustração ligada a uma auto-imagem desejada. E quando falo de imagem, isso não se resume ao que é visível, embora este seja um componente importante. Me identifiquei muito com este relato. Acho que minha história de vida me tornou um profissional nesta doída arte da comparação com os outros e com um ideal muitas vezes inatingível.
Falando assim parece simples. Parece inclusive que a pessoa tem um problema em estabelecer conexões lógicas bastante óbvias. Mas é justamente aí que está a complicação. A falta de consciência dos efeitos do meio sobre si mesmo ou sobre os outros é o que muitas vezes leva a este diagnóstico simples, porém absolutamente equivocado.
Somos seres sociais. Isso tem implicações profundas e espalhadas por todos os âmbitos de nossas vidas. O ponto é que muitas destas implicações se tornam ainda mais poderosas por estarem ocultas e, portanto, não serem consideradas nos julgamentos que se fazem. Um exemplo simples é subestimar a importância crucial da aprovação das pessoas que nos cercam. Ao fazer isso, uma pessoa também acaba não compreendendo que muitos dos juízos de valor que lhe parecem mais íntimos, nada mais são do que um reflexo do ambiente social. Exemplo meu: tenho a impressão de querer intimamente estar aderido aos padrões sociais correspondentes à minha classe econômica, meu nível de educação e meus círculos sociais próximos.
Mas na verdade, esse desejo é uma mistura de fatores. No fundo, de modo não sempre consciente, eu sei que o tratamento social recebido pelas pessoas que têm esta aderência é muito melhor. Assim, mesmo que pessoalmente eu não tenha um apreço especial por essas características, eu posso acabar tomando-as como desejos íntimos, que dariam sentido à minha vida.
O problema é que de fato alguns destes desejos podem ser impossíveis de se conseguir. Isso acontece porque ainda que haja uma integração parcial de pessoas distintas em um determinado grupo social dominante (como no meu caso, um deficiente físico com todas as outras prerrogativas de pertencimento à classe dominante em São Paulo), esta integração tem limites bastante rígidos.
Ao defrontar-se com estas restrições, o indivíduo sofre um baque bastante forte. Porque se a diferença é algo antigo, no fundo a pessoa sabe que teve de fazer esforços e sacrifícios bastante grandes para ser aceita, ainda que não completamente. Poderia se sentir traída, mas nem sempre isso acontece. Novamente o espelho social tem um papel preponderante na análise que se consegue fazer. Ao invés de compreender que há diferenças entre si mesmo e o grupo social de referência, e que estas direta ou indiretamente impedem a integração, os sinais recebidos do meio fazem com que muitas vezes, a frustração e a decepção tenham o próprio indivíduo como alvo.
Assim, a pessoa começa a se sentir inadequada, incompleta, quase como uma aberração. Ela não considera que a sociedade tem interesse em que as pessoas sejam de determinada maneira e que alcancem certos marcos de desenvolvimento em determinados pontos no tempo. Ela pensa, ao contrário, que este desejo é legítimo, e além disso, dela própria, íntimo.
É bastante razoável supor que esta situação gere grandes doses de sofrimento. Mas o que faz dela tão perigosa e danosa é o fato de a pessoa voltar sua energia para combater a si mesma. Ao invés de perceber o quão arbitrário e até incoerente é este julgamento social absorvido, a crítica interna se volta contra os próprios traços discrepantes e também os sentimentos causados por toda esta dissonância.
Debaixo do fogo cruzado, o próprio e o social, a pessoa passa a tentar desenvolver estratégias para combater esses sentimentos desagradáveis e que muitas vezes acabam gerando quadros patológicos. Uma das armadilhas mais comuns nestas situações é crer que ser possível controlar os próprios pensamentos e sentimentos. Esta é uma falácia bastante popular, mas que pode ser aniquilada de maneira bastante simples.
Se eu disser para mim mesmo, ou para qualquer outra pessoa, que evite pensar em uma girafa verde com bolinhas amarelas, o que estou fazendo é estimular este pensamento e não coibi-lo. Por isso, tentar controlar pensamentos e sentimentos é uma tarefa ingrata: quanto mais energia se gasta, menos se alcança o resultado desejado.
Mas as pessoas têm muita resistência em aceitar este fato porque a sensação de controle (e especialmente de auto-controle) está incrivelmente relacionada à felicidade. Assim a pessoa novamente se machuca, porque não importa seu nível de determinação e esforço, pensamentos e sentimentos são espontâneos. E quando o esforço é vão (o que acontece com extrema frequência) a frustração ganha uma nova dimensão. Essa frustração acumulada vai tornando a pessoa cada vez mais negativa e descrente no que está por vir (além de gerar um sentimento de culpa por não ser capaz de fazer algo que acreditava piamente ser possível).
Apesar de ter descrito o mecanismo perverso pelo qual a exclusão social se manifesta na psique humana, a conclusão deste texto não será em tom menor. Porque apesar de continuarmos sendo seres sociais e apreciarmos o feedback positivo das pessoas que nos cercam, é possível ter clareza sobre a separação entre nossas demandas e desejos íntimos daqueles que apenas absorvemos para depois projetar de volta ao meio.
A melhor ferramenta que eu conheço para fazer isso é a meditação. A explicação também não tem nada de esotérico. Meditar é treinar a atenção, para dentro e para fora. Quando você faz isso, percebe que sentimentos e pensamentos possuem uma natureza transitória e involuntária. Por isso, acaba sendo natural tratá-los de acordo, e assim gastar menos energia tentando controlar o incontrolável.
Além deste insight fundamental, um outro também surge ao mesmo tempo. Não é possível controlar pensamentos e sentimentos, mas é possível e desejável controlar onde focamos nossa atenção. Então o benefício é duplo. Porque simultaneamente reduzimos o gasto energético com uma tarefa impossível e ganhamos consciência de uma forma de controle que é fundamental ao nosso bem-estar. O treino da atenção revela e solidifica a certeza de que não somos nossos pensamentos ou sentimentos. A observação atenta revela que há mesmo distância entre estes e o que somos. Do contrário, não seria possível assumir a posição de observador destes fenômenos.
É muito interessante que além da capacidade de observar os próprios pensamentos e sentimentos como algo separado de nós mesmos, este treino da atenção também acaba possibilitando enxergar a separação entre nós mesmos e o mundo que nos cerca, permitindo saber com clareza quais são os nossos desejos, anseios e vontades e quais são os que apenas tomamos emprestados aos que nos rodeiam.
E não pense que esta separação nos afasta das pessoas. Na verdade acontece o oposto. A visão clara de quem somos permite que nossa curiosidade desabroche e que busquemos o conhecimento do outro e a proximidade de maneira muito mais honesta e serena.
Por isso, apesar de saber muito bem o quão deletério pode ser o efeito da sociedade sobre alguém que não possa ser completamente integrado devido à diferenças físicas, psíquicas, culturais, etc, (e o outro blog fala muito sobre isso) entendo que a serenidade continua ao alcance desta pessoa. Pode não ser uma tarefa fácil ou com resultados instantâneos. Mas ao contrário das terapias, a prática constante da meditação certamente trará benefícios, mais cedo ou mais tarde. E assim como a sua própria atenção, fazer isto só depende de você.
terça-feira, novembro 25, 2014
A coisa mais triste
Não quero chafurdar em tristeza. Não há praticamente nada bom em fazê-lo. Mas esta questão é relevante, e talvez a sua consciência possa melhorar a vida de outras pessoas. A deficiência pode trazer um tipo muito especial de solidão. Não é que ser deficiente implique em não ter amigos, embora isso também possa acontecer. A solidão de eu estou falando é muito mais profunda. Tanto assim, que se não for reconhecida, realmente pode destruir a vida de alguém.
O que significa estarmos juntos? Quais são as razões por trás da nossa natureza social e atração quase constante em direção a outras pessoas?
Talvez tudo isso surja de nossas necessidades básicas de origem primitiva, tais como comida, sexo e abrigo. Nós somos uma das espécies que mais se apoia nas estruturas sociais para que essas necessidades sejam satisfeitas. Nos primórdios da nossa espécie (e hoje só seria diferente com uma arma de fogo), um único caçador humano era um alvo muito fácil para os predadores mais bem equipados fisicamente. Não só isso, mas estes caras também seriam presa fácil de outros seres humanos. Concorrência perfeita intraespécie enfraqueceria toda a humanidade, tonando-a mais fraca e mais propensa a extinção.
Mas nossos cérebros enormes nos permitiram desistir dessa ideia de guerra total e unir forças, fazendo dos grupos sociais poderosas máquinas multiuso. De certa forma, as pessoas perceberam que os resultados da luta contra o meio ambiente e outros homens ao mesmo tempo trazem benefícios médios menores do que colaborar.
Mas isso tudo aconteceu há milhares de anos. E quanto a nós? Como nos relacionamos uns com os outros nessa sociedade altamente especializada? Talvez toda essa sofisticação que temos hoje seja apenas a evolução histórica natural de uma máquina de caça muito bem azeitada. Pode ser que os princípios básicos que nos fizeram permanecer unidos ainda estejam por aí. Quem sabe eles só tenham uma aparência externa diferente, exatamente por causa de toda essa sofisticação e complexidade.
De qualquer forma, parece-me que o ingrediente mais importante para que estes sistemas sociais funcionem é que os indivíduos tenham a capacidade de se enxergarem uns nos outros e em toda a sociedade. Quando alguém se vê em outra pessoa, já não há duas entidades completamente diferentes. Essas pessoas se tornam um novo organismo, que irá buscar satisfazer suas próprias necessidades, satisfazendo aquelas individuais por tabela.
Isto é verdade para um grupo de amigos, para uma família, uma cidade ou mesmo um país. Em todos esses casos, as pessoas precisam se identificar umas com as outras para que possam colaborar para alcançar objetivos comuns. A confiança floresce da consciência de que a pessoa na minha frente tem sentimentos, desejos e necessidades semelhantes às minhas, gerando empatia. Então teremos um denominador comum sobre o qual construir uma existência coletiva, que é muito mais interessante e mais rica do que a que cada um dos indivíduos poderiam criar de forma isolada.
Vínculos interpessoais são mais fortes quando as pessoas têm um contexto comum maior. Isso pode maximizar o alinhamento e fazer do acordo algo mais natural. Não é impossível ter um bom amigo que vive uma vida totalmente diferente da sua. Mas neste caso, a identificação e a troca podem ser limitadas e assimétricas, criando laços mais fracos (pelo menos em termos de amizade). Isso também é verdade em termos de distância física. Geralmente é muito mais fácil manter a amizade com pessoas que estão fisicamente próximas de nós. Isso aumenta a percepção de disponibilidade que temos delas, e amplia o contexto comum que temos uns com os outros. Muitas vezes duas pessoas são amigas próximas durante a escola e se afastam mais e mais à medida em que se envolvem em ambientes sociais diferentes.
Além da proximidade física, experiências comuns são extremamente importantes para a construção de afinidade. Talvez por causa do caráter evolutivo mencionado acima, as pessoas tendem a se sentir mais seguras e mais felizes quando podem compartilhar suas experiências. Não necessariamente porque os outros possam realmente fazer algo sobre um problema que estamos enfrentando (apesar de que este também pode ser o caso). Mas porque partilhar nos faz sentir mais fortes e mais capazes de enfrentar qualquer problema.
Isso pode ser uma boa explicação de por que as pessoas com deficiência, mesmo reabilitadas, podem se sentir tão mal e solitárias. Mesmo estando em condições muito melhores do que absoluta maioria das que nunca passaram por esse processo. Reabilitação é um trabalho árduo. Dói, pode sugar toda a sua energia, mas geralmente produz uma grande melhora funcional em comparação com não fazer nada (dependendo da natureza da condição subjacente).
O problema é que somos seres sociais. Raramente ter um desempenho melhor nas atividades diárias é suficiente. Executá-las de forma diferente da maioria das pessoas (no tempo ou maneira) significa perder a possibilidade de compartilhar experiências semelhantes. É claro que é melhor para uma pessoa ser capaz de caminhar mais lentamente e com uma bengala do que não ser capaz de fazê-lo. Seria muito estúpido não reconhecer isso. Mas esta perspectiva positiva não leva em conta as necessidades sociais. Cria-se a experiência surreal de ser um enorme sucesso e ao mesmo tempo um retumbante fracasso. A tese da "mera questão física" pode ser descartada neste exato momento. Alguém pode ser inteligente o suficiente para desempenhar todas as tarefas intelectuais que costumam resultar em algum grau de sucesso material. Mas há a questão do denominador comum. Ainda que essa pessoa possa, teoricamente, realizar todas as atividades necessárias para ocupar um certo cargo, ficam de fora as questões de percepção e também a parte da auto-motivação.
Isso se soma à qualidade desigual do mundo em que vivemos. Realmente é possível treinar uma pessoa um tanto deficiente para executar todas as tarefas necessárias para viver uma boa vida em sociedade. Mas o fato é que isso sempre será feito de forma diferente e, portanto, não haverá uma identificação e isso criará uma lacuna que, teoricamente, não necessariamente precisaria existir. Em outras palavras, a pior coisa da deficiência pode não ser a própria deficiência, com todas as suas dores e dificuldades. Pode muito bem ser a solidão. Porque talvez você seja capaz de fazer muitas coisas, mas ao mesmo tempo você ainda é muito diferente. Sua vida é muito diferente e por isso você não pode realmente ver-se nos outros e, geralmente, eles não podem se ver em você.
Fazer um esforço enorme para ser capaz e a capacidade propriamente dita são apenas uma pequena parte do caminho. O resto, embora fisicamente possível acaba sendo socialmente inatingível. Este é o paradoxo de reabilitação. E, na minha opinião, é a coisa mais triste da deficiência.
O que significa estarmos juntos? Quais são as razões por trás da nossa natureza social e atração quase constante em direção a outras pessoas?
Talvez tudo isso surja de nossas necessidades básicas de origem primitiva, tais como comida, sexo e abrigo. Nós somos uma das espécies que mais se apoia nas estruturas sociais para que essas necessidades sejam satisfeitas. Nos primórdios da nossa espécie (e hoje só seria diferente com uma arma de fogo), um único caçador humano era um alvo muito fácil para os predadores mais bem equipados fisicamente. Não só isso, mas estes caras também seriam presa fácil de outros seres humanos. Concorrência perfeita intraespécie enfraqueceria toda a humanidade, tonando-a mais fraca e mais propensa a extinção.
Mas nossos cérebros enormes nos permitiram desistir dessa ideia de guerra total e unir forças, fazendo dos grupos sociais poderosas máquinas multiuso. De certa forma, as pessoas perceberam que os resultados da luta contra o meio ambiente e outros homens ao mesmo tempo trazem benefícios médios menores do que colaborar.
Mas isso tudo aconteceu há milhares de anos. E quanto a nós? Como nos relacionamos uns com os outros nessa sociedade altamente especializada? Talvez toda essa sofisticação que temos hoje seja apenas a evolução histórica natural de uma máquina de caça muito bem azeitada. Pode ser que os princípios básicos que nos fizeram permanecer unidos ainda estejam por aí. Quem sabe eles só tenham uma aparência externa diferente, exatamente por causa de toda essa sofisticação e complexidade.
De qualquer forma, parece-me que o ingrediente mais importante para que estes sistemas sociais funcionem é que os indivíduos tenham a capacidade de se enxergarem uns nos outros e em toda a sociedade. Quando alguém se vê em outra pessoa, já não há duas entidades completamente diferentes. Essas pessoas se tornam um novo organismo, que irá buscar satisfazer suas próprias necessidades, satisfazendo aquelas individuais por tabela.
Isto é verdade para um grupo de amigos, para uma família, uma cidade ou mesmo um país. Em todos esses casos, as pessoas precisam se identificar umas com as outras para que possam colaborar para alcançar objetivos comuns. A confiança floresce da consciência de que a pessoa na minha frente tem sentimentos, desejos e necessidades semelhantes às minhas, gerando empatia. Então teremos um denominador comum sobre o qual construir uma existência coletiva, que é muito mais interessante e mais rica do que a que cada um dos indivíduos poderiam criar de forma isolada.
Vínculos interpessoais são mais fortes quando as pessoas têm um contexto comum maior. Isso pode maximizar o alinhamento e fazer do acordo algo mais natural. Não é impossível ter um bom amigo que vive uma vida totalmente diferente da sua. Mas neste caso, a identificação e a troca podem ser limitadas e assimétricas, criando laços mais fracos (pelo menos em termos de amizade). Isso também é verdade em termos de distância física. Geralmente é muito mais fácil manter a amizade com pessoas que estão fisicamente próximas de nós. Isso aumenta a percepção de disponibilidade que temos delas, e amplia o contexto comum que temos uns com os outros. Muitas vezes duas pessoas são amigas próximas durante a escola e se afastam mais e mais à medida em que se envolvem em ambientes sociais diferentes.
Além da proximidade física, experiências comuns são extremamente importantes para a construção de afinidade. Talvez por causa do caráter evolutivo mencionado acima, as pessoas tendem a se sentir mais seguras e mais felizes quando podem compartilhar suas experiências. Não necessariamente porque os outros possam realmente fazer algo sobre um problema que estamos enfrentando (apesar de que este também pode ser o caso). Mas porque partilhar nos faz sentir mais fortes e mais capazes de enfrentar qualquer problema.
Isso pode ser uma boa explicação de por que as pessoas com deficiência, mesmo reabilitadas, podem se sentir tão mal e solitárias. Mesmo estando em condições muito melhores do que absoluta maioria das que nunca passaram por esse processo. Reabilitação é um trabalho árduo. Dói, pode sugar toda a sua energia, mas geralmente produz uma grande melhora funcional em comparação com não fazer nada (dependendo da natureza da condição subjacente).
O problema é que somos seres sociais. Raramente ter um desempenho melhor nas atividades diárias é suficiente. Executá-las de forma diferente da maioria das pessoas (no tempo ou maneira) significa perder a possibilidade de compartilhar experiências semelhantes. É claro que é melhor para uma pessoa ser capaz de caminhar mais lentamente e com uma bengala do que não ser capaz de fazê-lo. Seria muito estúpido não reconhecer isso. Mas esta perspectiva positiva não leva em conta as necessidades sociais. Cria-se a experiência surreal de ser um enorme sucesso e ao mesmo tempo um retumbante fracasso. A tese da "mera questão física" pode ser descartada neste exato momento. Alguém pode ser inteligente o suficiente para desempenhar todas as tarefas intelectuais que costumam resultar em algum grau de sucesso material. Mas há a questão do denominador comum. Ainda que essa pessoa possa, teoricamente, realizar todas as atividades necessárias para ocupar um certo cargo, ficam de fora as questões de percepção e também a parte da auto-motivação.
Isso se soma à qualidade desigual do mundo em que vivemos. Realmente é possível treinar uma pessoa um tanto deficiente para executar todas as tarefas necessárias para viver uma boa vida em sociedade. Mas o fato é que isso sempre será feito de forma diferente e, portanto, não haverá uma identificação e isso criará uma lacuna que, teoricamente, não necessariamente precisaria existir. Em outras palavras, a pior coisa da deficiência pode não ser a própria deficiência, com todas as suas dores e dificuldades. Pode muito bem ser a solidão. Porque talvez você seja capaz de fazer muitas coisas, mas ao mesmo tempo você ainda é muito diferente. Sua vida é muito diferente e por isso você não pode realmente ver-se nos outros e, geralmente, eles não podem se ver em você.
Fazer um esforço enorme para ser capaz e a capacidade propriamente dita são apenas uma pequena parte do caminho. O resto, embora fisicamente possível acaba sendo socialmente inatingível. Este é o paradoxo de reabilitação. E, na minha opinião, é a coisa mais triste da deficiência.
Reativando
Nada mais natural que um sujeito trabalhando com línguas tenha um blog em cada uma pra facilitar a vida de todo mundo. Esse aqui vai ser a versão em português. Não prometo traduzir tudo o que escrevi no Disability Matters, mas vou tentar mantê-los mais ou menos pareados. :)
quarta-feira, novembro 12, 2014
Disability matters. A learning journey.
Everybody believes knowing what disability is.That's probably where the problems begin. A completely different disability paradygm was created in the late 70's and early 80's. But general population still holds to the older conceptions of it. Disability is still often considered as an individual tragedy. Something destiny only brings to some less fortunated people. In other words, something to be tackled individually. This blog is aimed at destroying this misconception. Read more at vaphil.blogspot.com
segunda-feira, maio 16, 2011
Noite adentro
Na noite domingo em uma das vidas
O ar às vezes falta e o tempo atropela
Um comprimido e o suor que escorre pela testa
O que foi, o que vai ser, o que é?
Os pensamentos são precursores de tudo
Aramos a terra desses pensamentos e os colhemos
Cada um frutifica, desabrocha em sentimento
Tem sentido a vida?
A pergunta ecoa, a resposta não
O mundo está feito, conformado, forjado
Ainda assim se molda macio como o substrato mais sutil
Quem somos? De onde sai e por onde entra essa noção do próprio ser?
Eu escrevo versos livres
Sinto demais e entendo de menos
Não sou livre ainda
Mas existe beleza em tudo
É preciso sabê-la
O ar às vezes falta e o tempo atropela
Um comprimido e o suor que escorre pela testa
O que foi, o que vai ser, o que é?
Os pensamentos são precursores de tudo
Aramos a terra desses pensamentos e os colhemos
Cada um frutifica, desabrocha em sentimento
Tem sentido a vida?
A pergunta ecoa, a resposta não
O mundo está feito, conformado, forjado
Ainda assim se molda macio como o substrato mais sutil
Quem somos? De onde sai e por onde entra essa noção do próprio ser?
Eu escrevo versos livres
Sinto demais e entendo de menos
Não sou livre ainda
Mas existe beleza em tudo
É preciso sabê-la
quarta-feira, janeiro 06, 2010
Poema do Drummond pra Mayarinha
Explicação
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua, cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu pais, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrcgo vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
De Alguma poesia (1930)
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua, cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu pais, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrcgo vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
De Alguma poesia (1930)
terça-feira, dezembro 22, 2009
La lingua del cuore
Oggi voglio scrivere nella lingua del mio cuore. non c'é ragione stilistica per farlo. soltanto perché cosí i sentimenti mi escono naturalmente, senza il filtro della fottuta ragione. Non voglio essere disturbato da questa voce, che può essere infinitamente utile eppure uccidere quello che la sente. Finalmente godo un pó la libertá. Finalmente la mia testa é fuori l'inferno. Già so cosa dovrei fare per uscire, pero mi sentivo assolutamente incapace. e così sono diventato veramente incapace di tante cose. Io spero che questa luce che me appare ora sia qualcosa di concreto, qualcosa che rimanga. perché adesso che mi ricordo quanto é bello vedere la luna in cielo e una bella ragazza caminando tranquila o in fretta per strada vedo che qualsiasi il motivo, e voglio dire veramente qualsiasi uno, qualcuno può impazzire con l'oddio e con i sentimenti che non fluono, dunque non vale la pena. per questo vorrei registrare questo giorno, Dicembre, 21 in cui io ho rivisto la pace di spirito dopo molti anni. E prego a Dio, al diavolo o a qualsiasi uno che mi possa aiutare, per che Io la conserve.
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Auto-psicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
terça-feira, dezembro 15, 2009
Depois da Chuva
Queria escrever algo bonito como uma faixa amarela no asfalto úmido. Queria que as palavras moldassem a mágica que me escapa no viver e que fizessem vibrar alguém numa mesma frequência e que me tornasse menos só. Mas essa representação ilusória não passa de um desejo infantil de compensação do não viver que se instalou em mim. Eu busco uma explicação menos clara e menos fácil porque aquilo que surge na superfície é tão execrável quanto qualquer outro sentimento mesquinho.
domingo, dezembro 06, 2009
Resposta
Não gostaria que pensasse que minha vida piorou tanto por sua causa. E nem que a sua falta me sufoca a cada dia. Também não quero que pense que os seus sentimentos pra mim não valem nada. Mas às vezes temos que tomar decisões duras que contrariam o coração na esperança de se machucar um pouco menos. E os sentimentos dos outros nem sempre são sensatos, assim como os nossos tampouco o são. Não queria que tudo acabasse assim na base do ódio e do ressentimento. Mas não podia te deixar me dominar porque então me perderia de vez.
sábado, novembro 07, 2009
Novo
Afinal tudo passa pra bem ou pra mal. E apesar de não querer enterrar o que é belo e me é caro, o apego de fato não leva a nada. É apenas uma teimosia contra o tempo que faz questão mesmo de passar. Não sou mais o mesmo e tampouco é o mesmo meu sentimento. O luto que parecia infinito como a mais intensa das tempestades começa a ceder. Que venha o novo! Te espero ansiosamente!
sábado, outubro 31, 2009
Why?
Why should I care that much?
Come mai il certo ha un gusto sapore cosí amaro?
Son tantas preguntas dificiles
C'est trop facile perdre la tête
Come mai il certo ha un gusto sapore cosí amaro?
Son tantas preguntas dificiles
C'est trop facile perdre la tête
sexta-feira, outubro 30, 2009
sem fim
Eu preso à capa triste da feiúra
Fico esperando só o teu sinal
Esperança de que o momento de amargura
Não seja tão somente o que é final
Final não dura mesmo ou deixa nada
Nem carne, nem espírito nem alma
Amor que nunca houve e nem a amada
Nem mesmo flor, o gelo ou mesmo a calma
Você diz que não quer mais esse drama
E ainda assim sem gosto faz refém
do amor que é imortal posto que é chama
de flor que já não sabe amar ninguém
Queria amar as pedras do caminho
Constância abençoada e mineral
Mas meu caminho é feito assim de lágrima
E essa eu sei não passa de água e sal
Fico esperando só o teu sinal
Esperança de que o momento de amargura
Não seja tão somente o que é final
Final não dura mesmo ou deixa nada
Nem carne, nem espírito nem alma
Amor que nunca houve e nem a amada
Nem mesmo flor, o gelo ou mesmo a calma
Você diz que não quer mais esse drama
E ainda assim sem gosto faz refém
do amor que é imortal posto que é chama
de flor que já não sabe amar ninguém
Queria amar as pedras do caminho
Constância abençoada e mineral
Mas meu caminho é feito assim de lágrima
E essa eu sei não passa de água e sal
sábado, outubro 10, 2009
Lírico
Tem uma briga das boas dentro. A razão raciocina tanto e o coração ainda sente. O coração sente tanto que a razão cansa apesar de a razão não sentir nem cansaço. E eu no meio....
o que fica
a rotina é só uma ilusão do que é constante. o amor, as lágrimas e a beleza, tudo se esvai o tempo todo. a mudança é só o que permanece.
terça-feira, junho 16, 2009
Tarde na praia
Não sei o que faço para acalmar essa sensação de perda que me acompanha sempre. Penso nos meus amigos do outro lado do Atlântico. Olho todas aquelas fotos no computador e me dá um vazio que parece um buraco negro vertiginoso. Me lembro da solidão absoluta daquele estranho e inacabado prédio de concreto chamado Koralen depois que todos se foram de volta às suas vidas reais.
Sentia lá a mesma falta que sinto aqui e certamente minha vida não era mais confortável. Era insustentável e irreal. E maravilhosa. Pra todos nós. Talvez por isso os laços que nos uniam nessa realidade fugidia e improvável tenham se dissolvido ao vento e à chuva mas ficaram gravados no mámore da nossa memória, com ternura imensa. E as coisas estupidas que fizemos ficaram pra trás e o que sobrou é um tipo de saudosa lição.
Era verdade? Eram certamente verdadeiras as lágrimas derramadas em Ny Haven por todos nós, sentados na calçada de paralelepípedo daquele país que até hoje não entendemos por inteiro mas que nem por isso deixamos de amar. As lágrimas estavam dentro ou fora. Benditos aqueles que conseguem deixá-las bem à vista. Assim elas molham as faces de uma umidade salgada e se transformam em memórias doces. Olhávamos uns aos outros e pensávamos sobre o quão improvável era aquela reunião. Mais improvável ainda que se repetisse fora do âmbito da memória e do sonho.
Há entre as melhores lembranças aquelas do céu mais lindo do mundo e das paisagens brancas que se dissolviam em uma paleta de cores que eu nem sabia que existiam. Daquele Sol macio e cor de bronze que era o mesmo que me atormentava aqui nos trópicos. Mas lá era motivo só de alegria e de ficar fora sem todas aquelas camadas de algodão e lã e poliéster. Em cima de nossas inseparáveis bicicletas, o vento nos acariciava sempre, com mais ou menos vigor, às vezes furia.
Lembro de uma tarde numa praia com menos de 50m de cascalho grosso e água gelada. Mais parecia um parque repleto de árvores altas e risos frouxos e bolas quicando nas alturas. Nessa história o mar era coadjuvante. Talvez fosse a plenitude aquela luz dourada se esgueirando entre as folhas das enormes caducifólias. A tarde iluminada avançava noite a dentro, esse adorável truque escandinavo de fazer os dias e as noites perderem o sentido na vida tranquila e farta. Por isso se fazia difícil acreditar que o tempo já tivesse passado tão depressa e sem alarde. Talvez seja o mais perto da felicidade que eu já tenha chegado.
Sentia lá a mesma falta que sinto aqui e certamente minha vida não era mais confortável. Era insustentável e irreal. E maravilhosa. Pra todos nós. Talvez por isso os laços que nos uniam nessa realidade fugidia e improvável tenham se dissolvido ao vento e à chuva mas ficaram gravados no mámore da nossa memória, com ternura imensa. E as coisas estupidas que fizemos ficaram pra trás e o que sobrou é um tipo de saudosa lição.
Era verdade? Eram certamente verdadeiras as lágrimas derramadas em Ny Haven por todos nós, sentados na calçada de paralelepípedo daquele país que até hoje não entendemos por inteiro mas que nem por isso deixamos de amar. As lágrimas estavam dentro ou fora. Benditos aqueles que conseguem deixá-las bem à vista. Assim elas molham as faces de uma umidade salgada e se transformam em memórias doces. Olhávamos uns aos outros e pensávamos sobre o quão improvável era aquela reunião. Mais improvável ainda que se repetisse fora do âmbito da memória e do sonho.
Há entre as melhores lembranças aquelas do céu mais lindo do mundo e das paisagens brancas que se dissolviam em uma paleta de cores que eu nem sabia que existiam. Daquele Sol macio e cor de bronze que era o mesmo que me atormentava aqui nos trópicos. Mas lá era motivo só de alegria e de ficar fora sem todas aquelas camadas de algodão e lã e poliéster. Em cima de nossas inseparáveis bicicletas, o vento nos acariciava sempre, com mais ou menos vigor, às vezes furia.
Lembro de uma tarde numa praia com menos de 50m de cascalho grosso e água gelada. Mais parecia um parque repleto de árvores altas e risos frouxos e bolas quicando nas alturas. Nessa história o mar era coadjuvante. Talvez fosse a plenitude aquela luz dourada se esgueirando entre as folhas das enormes caducifólias. A tarde iluminada avançava noite a dentro, esse adorável truque escandinavo de fazer os dias e as noites perderem o sentido na vida tranquila e farta. Por isso se fazia difícil acreditar que o tempo já tivesse passado tão depressa e sem alarde. Talvez seja o mais perto da felicidade que eu já tenha chegado.
quarta-feira, abril 01, 2009
aceitar o inaceitável
gosto de ser iconoclasta. o bom senso é de fato uma coisa entediante. relevar, tolerar, ser complascente, tudo isso é muito útil e talvez gerasse a paz no oriente médio ou no coração aos homens de boa vontade. mesmo assim, não consigo deixar de gostar da figura do revolucionário. nao aquele Che de cabelos ao vento, mas daquele que no seu dia-a-dia spicciolo faz valer o que é certo, mesmo que para isso tenha que jogar ácido nos olhos alheios e às vezes nos próprios. choveria no molhado se dissesse que não me sinto parte de um país onde a bandidagem alagoana e maranhense (mesmo pós impeachment)se serve do que é público como numa churrascaria rodízio. o mesmo poderia dizer do judiciário podre que mesmo nas mais altas instâncias não se furtam a defender interesses excusos de banqueiros-pistoleitos em detrimento do que é de todos. tá começando a ficar chato, mas como eu sei que ninguém lê isso, vou aproveitar pra vomitar essas obviedades porque talvez o cheiro azedo tire alguém desse torpor macio e morno. odeio posições blasé-alcoólatras dos que se emocionam com uma sinfonia de Beethoven mas não com a miséria de um filho. é esse tipo de canalhice dos homens de bem que permite que esse legislativo repugnante continuem limpando nossas contas bancárias quando o que eles mereciam era cavar a própria cova e pagar a bala que limparia o nosso mapa dessa sujeira podre.
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